A última refeição de Anthony Bourdain e a morte de um storyteller

Está no ar a edição 002 da 3x4. O documentário de Bourdain, os insetos que você vai comer para sobreviver, o entregador trintão que virou jogador e outras histórias

Que tal uma música para acompanhar?
Halestorm - Back from the Dead

Anthony Bourdain se deparou com a fama aos 43 anos de idade, depois de publicar um artigo na revista New Yorker onde revelava os bastidores, nada glamurosos, das cozinhas de restaurantes. Um profundo conhecimento que adquiriu nas mais de duas décadas em que trabalhou como lavador de pratos, cozinheiro, sub-chef e chef.

Em Não coma antes de ler isso, Bourdain escreve que “Boa comida, boa alimentação, tem tudo a ver com sangue e órgãos, crueldade e decadência. É sobre gordura de porco carregada de sódio, queijos com creme triplo fedorento, as delicadas glândulas do tomilho e fígados distendidos de animais jovens. É sobre o perigo — arriscar as forças negras e bacterianas da carne bovina, frango, queijo e marisco”.

“A gastronomia é a ciência da dor. Os cozinheiros profissionais pertencem a uma sociedade secreta cujos rituais ancestrais derivam dos princípios do estoicismo diante da humilhação, ferimentos, fadiga e ameaça de doença. Os membros de uma equipe de cozinha apertada e bem untada se parecem muito com a tripulação de um submarino. Confinados na maior parte do tempo em espaços quentes e abafados, e governados por líderes despóticos, eles frequentemente adquirem as características dos pobres idiotas que foram agrupados nas marinhas reais dos tempos napoleônicos - superstição, desprezo por estranhos e uma lealdade a nenhuma bandeira, mas a sua própria”.

Seu texto foi um tapa na cara “nos reinos brilhantes, alegres e implacavelmente promocionais da comida e da literatura de viagens.” O artigo fez um enorme sucesso, deu origem ao livro 'Cozinha Confidencial' e Bourdain virou um pop star.

Os eventos seguintes de sua vida, que culminaram com o suicídio aos 61 anos — cometido em junho de 2018 em um hotel na França — são retratados no documentário ‘Roadrunner: A film about Anthony Bourdain’.

“Bourdain era um mega-star da televisão, um escritor fluido e coloquial, um fanfarrão da mídia social, um comentarista cultural perspicaz e, aparentemente, o melhor amigo de todos. A singularidade de sua celebridade e a rapidez de sua morte alimentaram uma dor incomumente intensa e incomumente duradoura — um sentimento pessoal de perda pública, de um tipo geralmente reservado para papas e presidentes”, escreveu Helen Rosner, na New Yorker.

No documentário, continua Helen, “o diretor Morgan Neville usa entrevistas, imagens de arquivo, e alguns truques improváveis ​​para construir um argumento devastador para Bourdain como o herói e vilão de sua própria história — sua genialidade quebrando padrões, ao mesmo tempo infantil e cansado do mundo, mas salvo do clichê por ser um personagem extraordinário”.

‘Roadrunner’ retrata Bourdain como um homem que conquistou “tudo que sempre quis: dinheiro, oportunidade de viajar e liberdade”, mas que usava isso também para esconder suas inseguranças.

“Ele tinha síndrome do impostor; ele sempre sentiu que tudo poderia ir embora. Mas acho que, ainda mais do que isso, o motivo pelo qual ele continuou se movendo foi apenas a esperança de que a próxima coisa o fizesse feliz ou resolvesse algo em sua vida”, disse Neville.

Anthony Bourdain era do tipo boa praça. Daqueles caras que você acaba de conhecer e já quer pagar uma cerveja, porque sabe que dali vai sair ótimas histórias. Como essa, em que ele conta qual seria sua última refeição.

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"Minha última refeição seria no Sukiyabashi Jiro , um minúsculo sushi bar abaixo do nível da rua em Tóquio. Ele serve alguns dos melhores sushis do planeta.

Eu ficaria sozinho no sushi bar.Acho que prefiro morrer como um velho leão - rastejar para os arbustos onde ninguém pode me ver dar o último suspiro. Mas, neste caso, eu me arrastaria para um assento em frente a este belo sushi bar de madeira hinoki, onde Jiro Ono faria para mim um menu de degustação de 22 ou 23 pratos omakase.

Eu gostaria de comer como qualquer um no Jiro: rápido.E trocaria algumas gentilezas com Jiro-San (tendo milagrosamente aprendido a falar japonês antes desta última grande refeição).

Eu arriscaria desagradar Jiro apenas desta vez. Ele sente que as bebidas de arroz não destacam seu arroz e preferiria que eu bebesse sua mistura de chá da casa durante a refeição.

Mas, nesta ocasião, eu pediria os saquês mais raros e caros que ele concordaria em me vender. Na verdade, eu me permitiria ficar um pouco tonto. E, sendo esta minha última refeição, poderia convencer o mestre a se juntar a mim.

Depois do prato final, de preferência enquanto eu ainda estou mastigando, você pode se aproximar e — no estilo KGB — atirar na minha nuca. Enquanto eu caísse no chão, em meus últimos segundos de consciência, eu saberia que esta noite, ninguém na Terra havia comido melhor do que eu. Puro prazer.

* texto editado para melhor compreensão

** apesar de deter os direitos sobre o documentário, a HBO Max ainda não disponibilizou o filme para o Brasil

*** aqui está uma playlist com as músicas favoritas de Bourdain, feita pelo diretor do documentário


Já que a edição dessa semana está com um ar gastronômico, o que você me diria sobre comer insetos? Não digo como iguaria, mas como fonte de alimentação mesmo.

"Demógrafos projetaram que em 2050 a população mundial terá aumentado para nove bilhões, e a demanda por carne crescerá com isso, especialmente em países densos e em industrialização como a China e a Índia. 'A busca pela segurança alimentar pode exigir que todos reconsideremos nossos hábitos alimentares, especialmente em vista do consumo de energia e dos custos ambientais que sustentam esses hábitos.'

Geneticamente, (os insetos) estão tão distantes dos humanos que há pouca probabilidade de doenças se espalhando pelas espécies, como aconteceu com a gripe suína."

Para já começar a se habituar, aqui vai a dica de uma especialista.

"Para quem realmente tem medo de comer insetos, eu recomendaria experimentar primeiro um produto embalado contendo insetos, como uma lanchonete, biscoitos ou biscoitos. O sabor dos insetos (geralmente grilos) é indiscernível para os novatos e é uma ótima maneira de "quebrar o gelo". Para os mais aventureiros, os insetos em pó são fantásticos: são incrivelmente versáteis, além de saborosos e nutritivos. Experimente adicioná-lo a um smoothie, massa de panqueca ou até mesmo falafels."

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Júnior Messias começou sua carreira no futebol nas categorias de base do Cruzeiro, mas teve que abandonar seu sonho para ajudar a família. Aos 20 anos, se mudou para Itália para trabalhar como entregador em uma loja de eletrodomésticos. O futebol virou passatempo. Jogava, por diversão, campeonatos de futebol amador, o equivalente à várzea da Europa.

Em 2015, aos 24 anos, foi descoberto por um técnico e começou a jogar na 4°divisão italiana. E nessa semana foi contratado como o novo jogador do Milan, um dos maiores clubes do futebol mundial.


Salman Rushdie é mais um autor que aderiu as newsletters. O indiano lançou 'Sea of Stories'.

"Eu gostaria de falar sobre todos os tipos de histórias, histórias que tocaram, comoveram, impressionaram, entediaram ou até mesmo me revoltaram, em livros, filmes, na TV e nos cinemas, assim como histórias que eu simplesmente inventei."

O escritor, condenado à morte no Irã pelo livro 'Os versos satânicos', também pretende publicar — somente para os assinantes pagos — uma ficção inédita, em capítulos semanais.


The hype is real! Foi lançado, oficialmente, o trailer de Matrix 4, e nós estamos como? Já deu vontade de maratonar os outros filmes por aí também?

Se você já assistiu a esse trailer e quer as referências e segredos escondidos, é só clicar aqui.


Michael K. Williams morreu esta semana. O ator da série 'The Wire', da HBO Max, foi encontrado já sem vida em seu apartamento no Brooklin. O site Vulture publicou um belo perfil dele, com o título 'Death of a Storyteller'. Veja um trecho:

"Michael K. Williams fez você acreditar.

Michael K. Williams fez você acreditar em Omar Little, um lendário assaltante de Baltimore tão temível que, quando ele foi até a bodega com um robe de seda para comprar Honey Nut Cheerios para o namorado, as crianças gritaram "O Omar está chegando!" Os velhos se espalharam como pombos e traficantes jogavam suas coisas pelas janelas para poupá-lo do incômodo de pegá-los. 

Michael K. Williams fez você acreditar em Leonard Pine, um veterano negro gay conservador do Vietnã com um chapéu de cowboy cujo temperamento letal é fermentado pelo descontraído Steve McQueen em Hap e Leonard , e que ele seria amigo de um ex-liberal branco hippie no sul dos Estados Unidos. 

Michael K. Williams fez você acreditar que Chalky White, de Boardwalk Empire's, um gângster cruel, mundano e líder da comunidade negra de Atlantic City, poderia se apaixonar instantaneamente por uma jovem cantora de boate e ficar tão intoxicado com seu talento e beleza que colocaria em risco o poder que acumulou e a vida doméstica burguesa que ele construiu.

Williams fez você acreditar em cada personagem, cena, fala e momento que ele interpretou."


Livro da Semana

Mantendo a mesma vibe gastronômica, a indicação de livro da semana não poderia ser outra. Cozinha Confidencial, de Anthony Bourdain, faz uma bela mistura dos bastidores ‘pesados’ das cozinhas com autobiografia. Além de trazer algumas dicas importantes, como nunca pedir peixe na segunda-feira ou carne bem-passada.

Tudo isso regado pela escrita crua, direta e envolvente de Bourdain, que também é mestre nesse assusto.

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Filme (ou série) da Semana

Um belo dia tive a péssima ideia de tentar assistir todos os filmes originais da Netflix (ainda não consegui). Pode deixar, vou te poupar dos ruins… mas esse espaço não vai ser exclusivo para filmes nem para Netflix.

Eu disse que esse espaço não ia ser apenas para filmes…Midnight Dinner: Tokio Stories, é uma série japonesa bem curtinha. 10 episódios de 20 minutos cada. Aqui, um chef e seus cliente compartilham histórias e criam conexões enquanto apreciam um Lâmen. Uma história para aquecer o coração.